Uma jornada de resgate ancestral revela o legado do povo Avá-Canoeiro em uma área de 957 hectares na Fazenda Nenive.
Na tarde de 18 de junho de 2026, a Fazenda Nenive (antiga Fazenda Lavandeira) foi palco de um marco histórico para o Tocantins. Com a presença de 27 pessoas, foi oficializada a abertura ao público do Sítio Arqueológico Furtunato Pinto do Nascimento. A área, que possui 957,18 hectares e 18,57 km de perímetro, passa a ser reconhecida legalmente como Área de Interesse Arqueológico e Cultural do Município de Talismã, protegendo uma antiga aldeia indígena pré-colonial.
História viva despertada
O evento contou com a participação do arqueólogo do IPHAN, Rômulo Macêdo Barreto de Negreiros, que alertou: “Os sítios arqueológicos são bens da União e são protegidos por lei. Qualquer intervenção depende de autorização e fiscalização”. Ele explicou que os fragmentos de cerâmica da Tradição Aratu/Uru e a mão de pilão lítica encontrados na superfície comprovam a ocupação dos Avá-Canoeiro. Esse povo dominou o médio Tocantins até 1740, quando um violento massacre perpetrado por tropas coloniais com 25 artilheiros na Ilha do Tropeço visou “limpar” o rio para o ciclo da mineração.
Comunidade reunida na fazenda
A solenidade reuniu moradores e autoridades locais. Entre os presentes estavam Geralda Pinto do Nascimento e Domingo Pereira de Oliveira (proprietários da Fazenda Nenive), Silvestre Pinto do Nascimento (Fazenda Raio do Sol) e as secretárias Fabiana Alípio Macedo Parente (Educação e Cultura) e Amarildo Marçal Cardoso (Administração). O projeto foi apresentado pelo casal João Carlos Lopes e Sueli Mota de Oliveira Lopes, coordenadores e membros do Instituto Anjos da Selva, acompanhados pelo empresário Euclides de Souza Goianinho (APALE), Luciano Domingos da Penha (Ruraltins) e Raimundo Nonato Valadares (IPHAN), além de professores, brigadistas e artesãs.

O projeto resgatando raízes
João Carlos Lopes destacou os 12 subprojetos da parceria entre o Instituto Anjos da Selva e a Prefeitura. Entre as ações, destacam-se a compra de equipamentos de áudio e vídeo com recursos próprios do casal coordenador; o mapeamento de Cemitérios Tradicionais (com 39 locais registrados e 16 identificados); e a produção da Manta Criola no Atelier Anjos da Selva, que resgatou o uso do tear manual e do algodão caipira com encontros mensais na última sexta-feira do mês.
Também foi citada a estruturação do Museu Benjamim Fiori (criado pelo Decreto 062/2024 e Lei 750/2025), classificado por João Carlos como “o maior desafio”. O projeto mantém contato com Kamutaja Silva Ãwa, neta do líder Tutawa que resistiu ao contato forçado em 1973. A iniciativa engloba ainda o Parque Roberto Guedes Pereira, o Balneário Cachoeira, o Festival do Pequi (e a Brigada Anjos da Selva), além de festas tradicionais como a Folia do Divino, o São João Batista, o padroeiro São Sebastião e o Dia do Evangélico.

Trilha da memória ancestral
Após um intervalo de 90 minutos, o grupo percorreu a Trilha de Trabalho, que liga a sede da fazenda ao Cemitério Tradicional na Fazenda Raio do Sol. Durante a caminhada, o arqueólogo identificou novos fragmentos de cerâmica. No cemitério, o pedreiro José Inácio da Silva relatou que o próprio Furtunato Pinto do Nascimento ajudou a erguer os cruzeiros e o túmulo onde hoje descansa ao lado da esposa, momento que emocionou os participantes em uma roda de conversa.

Proteção legal rigorosa
A segurança jurídica da área foi fortemente reforçada com base no artigo 216 da Constituição Federal, na Lei 3.924/1961 e em decretos correlatos. O arqueólogo do IPHAN foi categórico ao lembrar as restrições: “É proibido destruir, mutilar ou explorar economicamente um sítio sem pesquisa prévia. Se achou vestígio na obra, para tudo e chama o IPHAN”. Ele mencionou que materiais coletados na região ficam sob a custódia da Universidade em Porto Nacional.

Futuro e preservação cultural
No encerramento, os discursos foram de otimismo. Dona Geralda e Silvestre Pinto agradeceram pelo privilégio, enquanto a secretária Fabiana Alípio elogiou o casal João Carlos e Sueli, destacando que as ações dependem de “conhecimento, dedicação e força de vontade”. Euclides de Souza (APALE) resumiu: “Se cada município tivesse uma pessoa como em Talismã, o mundo seria diferente”.
A antiga casa da Fazenda Lavandeira será a sede do sítio (Decreto Municipal 025/2026), e os próximos passos incluem o registro no CNSA do IPHAN e a averbação nas matrículas dos imóveis. A ata foi lavrada por Neuza Natalina Pallin e assinada por João Carlos, Rômulo e pelo prefeito Flavio Moura de França (Flávio Cristo Rei), fixando a cidade em suas coordenadas históricas e geográficas: 12°43’10,086″S / 48°55’26,94″W.



























