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Impeachment – na época do Collor o eleitor não perdoou os que votaram contra

A população foi implacável com os parlamentares que, em 1992, decidiram votar na contramão dos anseios populares, a favor de Collor. A história tende a se repetir

Cunhado da ex-primeira dama Rosane Collor, Vitório Malta (PDS-AL) havia sido o deputado mais bem votado em seu Estado, nas eleições de 1990. Dois anos depois, ele seria um dos 38 parlamentares a votar contra o impeachment do ex-presidente Fernando Collor. Dirigindo-se ao então presidente da Câmara, Ibsen Pinheiro, Vitório ajeitou o microfone, durante a sessão aberta transmitida ao vivo para todo o Brasil, e cravou: “Senhor presidente. Pelo Brasil, por Alagoas e pelo direito de defesa, meu voto é não”. A decisão na contramão dos anseios da população selaria o seu destino político. Por 22 anos, Vitório acumulou revezes. Não conseguiu mais se eleger para nada. Em 2010, um pequeno consolo: conseguiu uma vaga na Câmara de Vereadores do pequeno município de Maravilha.

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Não se tratou de um fato isolado. A história foi implacável com a esmagadora maioria dos deputados que viraram as costas para a sociedade. Dos 38 que votaram a favor de Collor, apenas três seguem até hoje no Congresso Nacional: o deputado Átila Lins (PSD-AM), o senador Ronaldo Caiado (DEM-GO) e o deputado Nelson Marquezelli (PTB-SP). Os demais experimentaram o infortúnio ou até mesmo o ocaso na vida pública. Depois de votar pela permanência de Collor, o deputado pernambucano Gilson Machado, do PRN, teve de sumir do mapa político. Largou a carreira parlamentar para virar empresário. Em sua biografia autorizada, “De capeta a Constituinte”, Machado disse ter recebido às vésperas da votação uma foto das três filhas de caras pintadas com a mensagem “não nos decepcione”. Machado não se sensibilizou nem com os apelos da família. Justificou sua decisão pró-Collor dizendo que o processo havia se transformado em um espetáculo midiático televisionado. Desgastado, não só nas ruas como no próprio seio familiar, o pernambucano optou por nunca mais se candidatar a um cargo público.

Ministro da Ação Social no governo Collor, o deputado Ricardo Fiúza (PFL-PE) não só não conseguiu se reeleger em 1994, como enfrentou problemas emocionais. Em entrevistas, depois da aprovação do impeachment do ex-presidente, o parlamentar revelou que passou a tomar tranquilizantes para suportar a frustração dos anos sem mandato. Até sua morte, em 2005, vítima de um câncer no pâncreas, sua principal luta era para se dissociar da pecha de corrupto que o cercava. Situação semelhante foi enfrentada pelo então deputado Ézio Ferreira, filiado ao PFL do Amazonas. O parlamentar teve de lidar não apenas com a repercussão negativa de seu apoio a Collor, mas também com o envolvimento no escândalo da Máfia do Orçamento – do qual foi inocentado, ao fim das investigações. Ferreira tentou se reeleger, sem sucesso, em 1994. O máximo que o amazonense conseguiu foi virar suplente de deputado quase uma década depois, em 2002.

O primo de Collor, o então deputado federal pelo PRN de São Paulo Euclydes Mello, também pagou caro pelo voto contrário ao impeachment. Nunca mais conseguiu ser eleito a nada pelo voto popular. Retornou a Brasília em 2003, mas como suplente do próprio Collor. Como se sabe, a suplência do Senado é escolhida pelo titular da vaga. Para chegar lá, não precisa conquistar um voto sequer. Sem sucesso, Euclydes havia tentado se candidatar ao governo de Alagoas, em 1998, mas a chapa foi impugnada pelo Tribunal Superior Eleitoral. Já como suplente no Senado, tentou novamente se reerguer e disputou, em 2008, a prefeitura de Marechal Deodoro. Mais uma derrota. Ficou em terceiro lugar.

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Ao lado da mulher Rosane, Fernando Collor deixava o Palácio do Planalto após acachapante derrota no Congresso

DESPEDIDA

 

Entre os que jamais conseguiram voltar ao Congresso estão outros aliados do ex-presidente alagoano como Alacid Nunes (PFL/PA), Ângelo Magalhães (PFL/BA), Carlos Virgílio Távora (PDS/CE), Elisio Curvo (PRN/MS), Etevaldo Nogueira (PFL/CE), Ezio Ferreira (PFL/AM), Humberto Souto (PFL/MG), Ivan Burity (PRN/PB), João Rodolfo (PDS/MA), José Burnett (PRN/MA), José Lourenço (PDS/BA), Luiz Viana Neto (Sem Partido/BA), Maurício Calixto (PFL/RO), Nelson Morro (PFL/SC), Osvaldo Melo (PDS/PA) e Tourinho Dantas (PFL/BA).

Aliado acreano de Collor, o ex-deputado federal Ronivon Santiago, à época filiado ao PSC, chegou a se reeleger em 1994, mas renunciou ao mandato após o vazamento de uma gravação em que ele admitia ter vendido seu voto a favor da emenda da reeleição, em benefício do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Em 2002, Santiago foi novamente reeleito, mas teve seu mandato cassado pela Justiça Eleitoral três anos depois. O paranaense Basílio Villani, à época filiado ao Partido da Reconstrução Nacional (PRN), também conseguiu se reeleger por mais duas vezes e chegou a ser vice-líder do PSDB na Câmara entre 1999 e 2000. Em abril de 2015, entretanto, o tucano foi condenado pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região por improbidade administrativa no escândalo de corrupção conhecido como Máfia das Ambulâncias.

Já o gaúcho Carlos Sá Azambuja se lançou na briga pelo Senado nas eleições seguintes, mas amargou o oitavo lugar, pelo PPR. Dois anos depois, Azambuja venceu a campanha para prefeito em sua cidade natal, Bagé, no Rio Grande do Sul. Derrotado na eleição seguinte, a gestão lhe rendeu uma condenação no Tribunal de Contas da União (TCU) por não prestar contas dos recursos repassados pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação ao município. Filiado ao PP, Azambuja recorreu, mas o TCU manteve a condenação.

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VITÓRIA DA DEMOCRACIA
Em 29 de setembro de 1992, 441 deputados votaram “sim” e autorizaram o Senado
a abrir processo contra o então presidente Fernando Collor. Dos 38 que
votaram “não”, só três permanecem no Congresso até hoje

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Citado recentemente na série de documentos Panama Papers, que reúne empresários e políticos brasileiros que usaram offshores para comprar imóveis de luxo nos Estados Unidos, o ex-governador e empresário do ramo imobiliário Paulo Octávio (PP-DF) demorou quatro anos para conseguir retornar ao Congresso, após o voto favorável a Collor. Foi por intermédio dele e do próprio alagoano, aliás, que o ex-senador preso na Lava Jato na última terça-feira (12/04), Gim Argello (PTB-DF), ingressou na política nos anos 1990. Imerso em denúncias de corrupção da operação Caixa de Pandora, entretanto, Paulo Octávio renunciou à cadeira de governador em 2010 e desde então atua apenas nos bastidores da política brasileira.

Como em 1992, sociedade estará mais do que nunca atenta ao comportamento dos parlamentares durante o processo de impeachment de Dilma. A votação deste domingo 17, inclusive, terá mais audiência do que a de Collor, já que hoje os aparelhos de TV estão presentes em 95,1% das residências brasileiras. Há 24 anos, não passava de 60%. Setenta correspondentes internacionais foram credenciados para cobrir o evento. Ou seja, todas as atenções globais estarão voltadas para a votação. Dos três parlamentares que votaram a favor de Collor, sobreviveram ao crivo das urnas e permanecem no Congresso, dois parecem ter aprendido a lição. São favoráveis ao impeachment da presidente Dilma Rousseff. São eles: o senador Ronaldo Caiado e o deputado Átila Lins (PSD-AM). O deputado Nelson Marquezelli (PTB-SP) ainda não se posicionou publicamente sobre o assunto. Até o fechamento desta edição, constava da lista de indecisos, contrariando a maioria dos parlamentares de seu partido. A ver se no histórico domingo 17, Marquezelli também escolherá contrariar mais de 60% da sociedade.

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